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O Caso Petitinga

Apraz-nos relatar em seguida, resumidamente, o episódio narrado por Manoel Philomeno de Miranda, que teve como protagonista o querido dirigente espírita da Bahia, José Petitinga, conforme está no livro Os Bastidores da Obsessão.
O fato aconteceu numa manhã de domingo, quando da reunião pública de exposição doutrinária na união Espírita Baiana. 
O expositor era Petitinga, que explanava sobre o cap. X, de O Evangelho segundo o Espiritismo, "Instruções dos Espíritos", a mensagem de Simeão, ditada em Bordeaux, em 1862, intitulada Perdão das ofensas. A sua palavra harmoniosa comovia os presentes que o ouviam enlevados. Em certo momento,
quando o orador fez pequena pausa, adentrou-se pela sala um homem, pertencente a respeitável família local, porém, portador de obsessão, que dirigiu-se ruidosa e intempestivamente à tribuna, com a fisionomia congestionada e gritou para Petitinga:
- Hipócrita! Quem és a pregar? Imperfeito como tu, como te atreves a falar da verdade e ensinar pureza, possuindo largas faixas de desequilíbrio íntimo, que ocultas dos que te escutam? Dize!
Houve um grande constrangimento entre os presentes e um silêncio tumular se abateu sobre o auditório. Mas Petitinga, embora tenha empalidecido, manteve-se calmo e olhando o agressor respondeu, humilde:
- Tens toda a razão e eu o reconheço. O tema em pauta hoje, que o caro irmão não ouviu, se refere exatamente ao "Perdão das ofensas"...
Mas o homem não o deixou terminar e retrucou: 
- Não te evadas covardemente. (...) Refiro-me às condições morais de que se devem revestir os que ensinam o que chamas a verdade, e que te faltam... Desafio-te a que abandones a tribuna religiosa ou abandones a vida que levas...
O público estava paralisado perante a cena inusitada. A entidade enferma desejava semear a suspeita "quanto à conduta ilibada, transparente e nobre do Evangelizador, e o desafiava a um duelo verbal negativo e pernicioso". Mantendo-se sereno, Petitinga humildemente, chamando a entidade que se manifestava através daquele homem, de "amigo espiritual" e lhe dando razão no que o acusava, declarou aos presentes: 
- (...) Ensinou o Mestre que nos confessássemos uns aos outros, prática essa vigente entre os primeiros cristãos e que o tempo esmaeceu e deturpou dolorosamente. Nunca me atrevi, nunca experimentei coragem para dizer aos companheiros sobre as minhas próprias dificuldades. Agora, utilizando-me do auxílio do irmão que me faculta ensejo, digo da luta intensa que travo n'alma para servir melhor ao Senhor, tentando, cada dia, aprimorar-me intimamente, lapidando grossas arestas e duras angulações negativas da minha personalidade enferma.
Depois de ter conhecido Jesus, minha alma luta denodadamente contra o passado sombrio, nem sempre logrando êxito na ferrenha batalha de superação dos velhos padrões de ociosidade e crime em que viveu, na imensa noite dos tempos. Abandonar, todavia, o arado, porque tenho as mãos impróprias, quando a erva má grassa e escasseiam obreiros, não o farei nunca! (...) 
Prefiro a condição de enfermo ajudando doentes, a ser ocioso buscando a saúde para poder ajudar com eficiência, enquanto se desgastam corpos e almas ao relento da indiferença de muitos, que as minhas mãos calejadas podem socorrer. Miserabilidade socorrendo misérias maiores, à posição falsa daquele que recebeu o talento e o sepultou, conforme nos fala a parábola do Senhor.
Embora imperfeito, deixo luzir minha alma quando contemplo a Grande luz; vasilhame imundo, aromatizo-me ao leve rocio do perfume da fé; espírito infeliz, mas não infelicitador, banho-me na água lustral da esperança cristã... Perdoa-me, Senhor, na imperfeição em que me demoro e ajuda-me na redenção
que persigo... 
Com o rosto banhado em lágrimas, Petitinga calou-se. O auditório emocionado, em peso, chorava, envolvido pelas vibrações superiores que se derramavam sobre todos. Inesperadamente, a entidade jogou o médium ao chão e presa da mesma emoção, bradou: 
- Perdoa-me, tu! A tua humildade venceu-me a braveza, velhinho bom! Deus meu! Deus meu! Blasfemo! O ódio gratuito cega-me. Perdoa-me, velhinho bom, e ajuda-me com a tua humildade a encontrar-me a mim mesmo. Infeliz que sou. Tudo mentira, mendacidade inditosa, a que me amarga os lábios. Ajuda-me, velhinho bom, na minha infelicidade...
Petitinga desceu os degraus da tribuna, aproximou-se do sofredor, falou-lhe bondosamente e amparou o médium, convidando-o a sentar-se. E levantando a voz, rogou: "- Oremos todos a Jesus, pelo nosso irmão sofredor, por todos nós, os sofredores". 

Comentando o fato, Miranda afirma que raras vezes presenciara cena mais comovedora, "era como se o Mundo Excelso baixasse à Terra e os homens pudessem transitar no rumo daquele mundo onde reside a felicidade...".

A Alfândega da Morte

Quando estamos desencarnados e tomamos contato com a realidade da vida nos dois planos, muitos de nós solicitamos a oportunidade de fazer parte das fileiras dos espíritas. De sermos praticantes da maravilhosa Doutrina dos Espíritos. Sem dúvida que isso é realmente alvissareiro. Mas é preciso ter cuidado com as escolhas, pois “a quem muito é dado, muito será cobrado”, por que, inúmeras vezes esquecemos que o conhecido “véu do esquecimento” cairá sobre nossas lembranças.
 Ora, a Terra ainda é um mundo materialista por excelência e alguém belo, poderoso e rico, é uma fonte de terríveis tentações.
Mas fomos atendidos nas nossas pretensões e começamos a trabalhar no Espiritismo. O que pode acontecer? Duas situações: fazermos a nossa reforma íntima ou deixamos despertar em nós a perigosa vaidade, filha dileta do orgulho e apadrinhada por qualquer obsessor de plantão!
O homem é senhor e responsável absoluto dos seus atos e quando encarnado, sujeito às excitações proporcionadas pela matéria, beleza, dinheiro e dons mediúnicos, precisa ficar muito atento, sempre se lembrando do Orai e Vigiai!
A Terra, como enfatizamos, ainda é um mundo materialista, onde o TER ainda supera em muito o SER. Mas nós sabemos mesmo o que realmente nos pertence? Ouçam...
José estava comendo um pão, quando se aproxima uma moça de nome Maria e lhe pede um pedaço. Ele nega, respondendo com visível irritação:
– Vá trabalhar como eu! E começa a pensar em voz alta.
Ah, como é bom nos aferrarmos ao dinheiro e imaginar que vamos mantê-lo conosco para sempre! E já que é nosso, o melhor e mais inteligente, é fazer com que aumente sempre.
É bem mais interessante ouvir o tilintar das moedas no meu bolso, do que ouvir um fraco, um débil obrigado, que às vezes nem se ouve, da boca de um faminto; é bem mais gratificante ficar admirando a beleza e o luxo da minha casa e do meu carro, do que estragar meu dia na contemplação de casebres imundos, à procura de alguém que precise de alguma ajuda; ora, e se eu posso, aproveitando a extrema necessidade de quem me procura, emprestar-lhe dinheiro a juros exorbitantes, por que eu me daria ao trabalho ou à loucura de dar dinheiro a quem quer que seja?
– Este é um dos maiores problemas da nossa evolução. O eu e o meu! Nunca o nós, nunca o nosso!
Aqueles que escolhem a porta larga e que se locomovem lentamente pela estrada atapetada da vida, curvados ao peso do seu ouro, a Alfândega da Morte lhes confiscará toda a sua bagagem dourada, pois ela é material! O que lhe sobra? Apenas uma pequena maletinha, aquela que deverá conter os bens e tesouros imperecíveis, que são de uso da alma.
Decepção! Está vazia! E ela também é confiscada, por não ter nada a transportar pelo vale da morte!
Não! Não vamos nos iludir com o brilho fascinante do ouro. A Alfândega da Morte a que nos referimos, é incorruptível e só deixa que levemos conosco, as migalhas de amor que houvermos distribuído; os pequenos favores que tivermos articulado pelos outros; os simples benefícios que tenhamos feito a terceiros, tudo em nome da verdadeira caridade desinteressada.
Entretanto, com enorme facilidade esquecemos que a verdadeira propriedade é a riqueza moral e espiritual. O resto, é apenas uma questão de saber quem tem mais ou menos bens materiais.
A caridade, que não é apenas a divina virtude que o Mestre Jesus nos ensinou. Ela é o mais completo e verdadeiro sistema contábil do universo, que nos permite ajudar para sermos ajudados.
E já que falamos nisso, como será que estão as nossas contas-correntes no Banco da Vida?
Infelizmente, parece que bem magrinhas, provavelmente no vermelho... Por que afinal, nenhum de nós ainda se diplomou na Escola da Verdadeira Vida, porque se ainda estamos gravitando em torno do planeta Terra, é porque ainda não fomos admitidos na maravilhosa e desejada Universidade Cósmica dos Espíritos Superiores!
Na realidade, o que realmente conta, é o que o homem é e não o que ele tem. O que ele é, sempre o acompanha e o que ele tem, é confiscado para sofrer a ação da traça e ferrugem, de que nos fala o Mestre Jesus.
Se a nossa intenção é ficarmos milionários, então mãos à obra! Vamos dar mais, cada vez mais. Quanto mais damos, mais temos.
O que temos dado? Doamos muito? Pouco? Não doamos nada? Ou temos doado tudo o que nos é possível? O que preferimos? Sermos comparados a um filete de água barrenta, aonde milhares nunca chegam e os que chegam não saciam a sua sede, devido à péssima qualidade da água? Ou comparados a um manancial de água cristalina, aonde todos os que chegarem terão suas gargantas ressequida pela avareza de terceiros, maravilhosamente refrigeradas?
Roguemos pois, ao Senhor dos Espíritos, que nos dê forças, coragem e determinação, para que nos transformemos em verdadeiros shoppings, de onde ninguém saia sem levar o que precisa.
Se nos pedirem pão e não tivermos, que eles levem a certeza de que amanhã haverá; se nos pedirem roupas e não tivermos, coloquemos sobre os seus ombros, um manto de esperança; se precisam de remédios e não temos, vamos oferecer-lhes o bálsamo da resignação; solicitam sapatos e não dispomos? Que tal tirarmos as pedras do seu caminho, para que não firam seus pés?
Por fim, quando os nossos Shoppings  estiverem vazios, é porque nos avizinhamos das fronteiras da vida física e as nossas maletas, repletas de amor, caridade, e boas ações, estarão livres, absolutamente livres do confisco pela Alfândega da Morte. Isso realmente nos pertence. É a nossa verdadeira propriedade!
E nesse momento, José, que recusou dividir seu pão com Maria e os que como ele pensam e agem, saberão, com a mais absoluta certeza, que apenas dando é que se recebe!
Agnaldo Cardoso

 Baleia Azul e a Epidemia de Suicídios, por Divaldo Franco


Com caráter epidêmico, o suicídio alcança índices surpreendentes na estatística dos óbitos terrestres, havendo ultrapassado o número daqueles que desencarnam vitimados pela AIDS.
A ciência, aliada à tecnologia, tem facultado incontáveis benefícios à criatura humana, mas não conseguiu dar-lhe segurança emocional.
Em alguns casos, a comunicação virtual tem estimulado pessoas portadoras de problemas psicológicos e psiquiátricos a fugirem pela porta abissal do autocídio, como se isso solucionasse a dificuldade momentânea que as aturde.
Por outro lado, sites danosos estimulam o terrível comportamento, especialmente entre os jovens ainda imaturos, que não tiveram oportunidade de experienciar a existência. De um lado, as promessas de felicidade, confundidas com os gozos sensoriais, dão à vida um colorido que não existe e propõem usufruir-se do prazer até a exaustão, como se a Terra fosse uma ilha de fantasia.
Embalados pelos muito bem feitos estimulantes de fuga da realidade, quando as pessoas dão-se conta da realidade, frustram-se e amarguram-se, permitindo-se a instalação da revolta ou da depressão, tombando no trágico.
Recentemente a Mídia apresentou uma nova técnica de autodestruição, no denominado clube da baleia azul, no qual os candidatos devem expor a vida em esportes radicais ou situações perigosíssimas, a fim de demonstrarem força e valor, culminando no suicídio.
Se, por acaso, na experiência tormentosa há um momento de lucidez e o indivíduo resolve parar é ameaçado pela quadrilha de ter a vida exterminada ou algum membro da sua família pagará pela sua desistência.
O uso exagerado de drogas alucinógenas, a liberdade sexual exaustiva e as desarrazoadas buscas do poder transitório conduzem à contínua insatisfação e angústia, sendo fator preponderante para a covarde conduta.
O suicídio é um filho espúrio do materialismo, por demonstrar que o sentido da vida é o gozo e que, após, tudo retorna ao caos do princípio.
É muito lamentável esse trágico fenômeno humano, tendo-se em vista a grandeza da vida em si mesma, as oportunidades excelentes de desenvolvimento do amor e da criação de um mundo cada vez melhor.
Ao observar-se, porém, a indiferença de muitos pais em relação à prole, a ausência de educação condigna e os exemplos de edificação humana, defronta-se, inevitavelmente, a deplorável situação em que estertora a sociedade.
Todo exemplo deve ser feito para a preservação do significado existencial, trabalhando-se contra a ilusão que domina a sociedade e trabalhando-se pelo fortalecimento dos laços de família, pela solidariedade e pela vivência do amor, que são antídotos eficazes ao cruel inimigo da vida – o suicídio!
Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 20-04-2017.

Médium Divaldo Franco

Espíritos Afins, de Jorge Hessen


1 - Jennifer Bricker participa de espetáculos de acrobacias aéreas e fascina as plateias com sua técnica. O mais impressionante é que Jennifer não possui as duas pernas. Aos 11 anos, já era uma campeã da ginástica, esporte pelo qual se apaixonou ao ver Dominique Moceanu ganhar uma medalha de ouro olímpica para os Estados Unidos em 1996.
Jennifer não sabia, porém, que as duas tinham muito mais em comum do que o talento de atleta, eram irmãs consanguíneas. Jennifer tinha poucos meses quando foi entregue para adoção porque não tinha pernas. Aos três anos recebeu próteses para as pernas, mas nunca as usava - se movimentava melhor sem elas. Ela adorava ver a equipe de ginástica feminina dos Estados Unidos e, especialmente, uma atleta: Dominique Moceanu.
Aos 10 anos, ela disputou os Jogos Olímpicos da Juventude e aos 11, foi campeã de ginástica tumbling pelo Estado de Illinois. Quando completou 16 anos, Jennifer perguntou à Sharon, a mãe adotiva, se havia algo que ela não tinha lhe contado sobre a sua família biológica. A adolescente não imaginava que a resposta fosse "sim". Sharon revelou-lhe que o sobrenome da sua família biológica era Moceanu e Dominique era sua irmã.
Quatro anos depois, Jennifer escreveu uma carta para Moceanu, contando sua história explicando que Dominique foi seu ídolo a vida inteira a tinha inspirado a ser uma ginasta também. Ambas se encontraram e até hoje estão unidas.
2 - Outro caso interessante aconteceu com as irmãs gêmeas Anais Bordier e Samantha Futerman. Ambas puderam se conhecer após 25 anos de idade. Uma não sabia da existência da outra, mas, um episódio da vida e a internet fizeram com que elas se reunissem. Ambas foram separadas depois do nascimento na Coréia do Sul e viveram e adotadas por famílias em diferentes países; Anais, em Paris, na França, e Samantha, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
O reencontro começou a ser desenhado em dezembro de 2012, enquanto Anais, uma designer de moda, estava em um ônibus e recebeu de um amigo a imagem de um vídeo do YouTube onde aparecia Samantha, que é atriz. Anais diz que pensou que alguém havia postado um vídeo dela, mas percebeu que era uma garota que vivia nos Estados Unidos muito parecida com ela.
Entrou em contato pelo Skype e ficaram mais de três horas de conversa. Posteriormente elas se conheceram pessoalmente em maio de 2013, em Londres, e desde então, mesmo vivendo em países diferentes, se comunicam várias vezes ao dia. Para Anais, descobrir que tem uma irmã é incrível, mas perceber que tem uma irmã gêmea é ainda mais inacreditável, porque as duas têm muito em comum.
A história das irmãs foi transformada no livro "Separated @ Birth: A True Love Story of Twin Sisters Reunited", lançado em 2014 e o interessante é que cada uma escreveu um capítulo alternadamente.
3 - Sob o enfoque espírita, efetivamente, muitas afeições terrenas são condições construídas, geralmente nas preexistências, através dos laços permanentes de afinidades espirituais, que se estabelecem entre seres, que comungam das mesmas inclinações psicológicas, em estado semelhante de evolução intelecto-moral.
Portanto, podemos analisar tema pelo prisma das almas “afins” que reencarnam na mesma família. Sabemos que a reencarnação é um mecanismo extremamente complexo. Suas variáveis vinculam-se ao estágio espiritual de cada reencarnante, considerando-se as obrigações de aprendizagem de todos os espíritos envolvidos para a convivência na Terra. Quando o espírito detém boa estrutura moral pode esquematizar sua reencarnação junto dos seres “afins”, sob a supervisão dos Benfeitores do além.
Na dimensão espiritual, estando libertos das paixões que nos ligaram na Terra, nos atraímos e agrupamos em famílias mais amplas, unidos por sentimentos sinceros, tendo em vista o aperfeiçoamento de todos e alegrando-nos, com as conquistas de cada um dos nossos entes queridos em cada regresso ao além-túmulo, após mais uma vida na Terra, plena de lutas e provações experimentadas e ultrapassadas.
No conjunto das reencarnações, “se uns espíritos encarnam e outros permanecem no além, nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam “livres” [no além] velam pelos que se acham em “cativeiro” [no corpo físico]. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. ”[1]
É bem verdade que dois Espíritos, que se afeiçoam, naturalmente se procuram um ao outro, nas suas caminhadas. Não ignoramos que entre os seres humanos há ligações afetivas ainda indecifráveis nos seus códigos misteriosos. O espectro do magnetismo é o auxiliar destas ligações, que futuramente compreenderemos melhor. ” [2]
Os personagens mencionados nesta narrativa são incontestavelmente espíritos afins que se juntaram, pelas leis da atração e amam estar juntos. Não obstante, nem todos os espíritos “afins” tenham necessariamente que se ter conhecido numa vida anterior, pois eles se atraem magneticamente por inclinações semelhantes, isso frequentemente acontece.
“A afeição que existe entre pessoas [especialmente]parentes são um índice da simpatia anterior que as aproximou…”[3] Desta forma, se todas as afeições forem purificadas “acima dos laços do sangue, o sagrado instituto da família se perpetuará no Infinito, através dos laços imperecíveis do Espírito. ”[4]
Referências bibliográficas:
[1]        KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. IV, item 18, RJ: Ed. FEB, 1977
[2]        KARDEC, Alan. O Livros dos Espíritos, questão 388, RJ: Ed. FEB, 2002
[3]        KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. IV, item 19, RJ: Ed. FEB, 1977
[4]        XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador, questão 175, RJ: Ed. FEB, 2001
 

Pureza ou Dureza Doutrinária?


Estava eu, dirigindo na engarrafada Avenida Brasil, em uma dessas manhãs ensolaradas,  quando me deparo com o adesivo no carro da frente, com os dizeres gritantes: “Em nome de Jesus, muita safadeza se produz”, frase de efeito, um tanto chula, é fato, mas que me remeteu imediatamente a outra frase famosa na internet: “Jesus é gente boa, o que estraga é o fã clube“, expressões emblemáticas da decepção vigente com as religiões e as suas sucessivas deturpações dos seus espíritos originais, adaptados não à realidade, mas às conveniências, fraquezas e ambições do ser humano e seus jogos de poder.
Nesse movimento de deturpação, trocamos sem cerimônia, na História da humanidade, o amor pela graça, a plenitude pela salvação, a confiança pela fé cega e seguimos, de forma conveniente, adaptando verdades, calando o nosso bom senso, chegando a conjecturas ridículas, que viram verdadeiras piruetas filosóficas para adaptar escritos religiosos aos nossos conceitos.
Vou abster-me de enumerar tais situações para evitar controvérsias estéreis, mas sabemos que essas manobras passam por questões de sexualidade, igualdade social e mitigação de conceitos humanistas.
Entretanto, nós outros, defensores das ideias do pedagogo francês que viu seus livros queimados em praça pública, que soube revolucionar paradigmas de forma coerente e pacífica, também padecemos de nossas fixações deturpatórias, inebriados por uma ideia de disciplina, de ordem, de padronização, em uma postura vestal e por vezes alienada do mundo real, e nesse sentido, destacaremos no presente artigo um grande instrumento de opressão e segregação nas fileiras espíritas: A pureza doutrinária.
Justificado pela observância dessa pureza, que busca catalogar atos e fatos como doutrinários ou não, com vieses na prática no qual o próximo de uma cultura afro não recebe o mesmo tratamento de algo na linha cristã-ocidental, cometemos violências simbólicas de censuras, proscrições e banimentos. Fazemos da pureza doutrinária o que é e já foi a Bíblia, tratada como escritura sagrada, imutável régua a medir a tudo e a todos.
Espere… Espere! Entendi bem, ou na constante pressão que sofremos no movimento espírita com a possibilidade de invasão de práticas estranhas, você autor, está defendendo uma liberação geral de tudo e de todos, um supra relativismo, um grande “pan-espiritismo ecumênico”, no qual caiba tudo, independente dos ensinos kardequianos, agregando práticas e ideias de toda ordem, em especial ao gosto do freguês?
Não. Definitivamente não… Se estivesse propondo isso, seria compactuar com uma mercantilização religiosa, de agradar os demandantes, adaptando-se para se expandir. O que defendo aqui é que não precisamos de bulas papais ou comissões inquisitórias que classifiquem saberes à luz de suas interpretações, sem debate, de forma hierárquica.
O que aponto é a necessidade de se fortalecer o diálogo crítico em relação às práticas e que sejamos caridosos nessas relações, respeitando as pessoas e as suas peculiaridades.
Falando do aspecto caridoso, inicialmente, até resgatando a ideia inicial de deturpação apresentada no artigo, cometemos absurdos em nome dessa pureza doutrinária. Somos duros, rígidos, encapsulados em relação às pessoas, mais preocupados com a forma e menos com o conteúdo, alheios às necessidades de cada um, tentando encontrar uma doutrina estática e universal, o que seria uma grande pretensão, vinculando todos a nossas interpretações. Um caminho perigoso, de autoritarismos…
E isso gera, por vezes, um patrulhamento doutrinário diretivo, que poderia ser substituído pelo debate franco sobre as ideias ali postas. Exemplo dessa atitude última é a de amigos do movimento que mantêm página na qual discutem abertamente a pertinência de determinadas obras, em face à profusão de literatura mediúnica na qual vivemos.
Tem-se ali um debate, no qual se argumenta e se expõe o que daquela obra é incoerente com a lógica e com os postulados espíritas. Exercita-se assim, de maneira fraterna, o chamado diálogo crítico.
E no que se refere ao diálogo crítico, complementando a ideia do parágrafo anterior, a força de nossas convicções é a análise racional dos atos e fatos à luz de nosso paradigma, entendendo que, como dizia Gibran na sua obra “O profeta”, não diga que encontrou a verdade, e sim uma verdade. Sim, o espiritismo não é e nunca se propôs a ser estático, a verdade absoluta, mas isso não faz dele uma panaceia que tudo absorve. É preciso estudar e refletir, e não consumir pacotes prontos do que é bom ou ruim, e nisso está a capacidade de sobrevivência do espiritismo.
Por isso, o espaço do doutrinário ou não doutrinário deve ser substituído, ao meu ver, pelo espaço do razoável ou não, do coerente ou não, ampliando-se discussões, abertos a realidades, para que se enxergue sem medo o que anda por aí, e que pensemos que torcer a cara sem nem saber direito do que se trata, ou abraçamos algo por que o médium “X” disse que é bom, é um raso olhar classificador binário, cabendo-nos entender o que daquilo fere o bom senso,  mas respeitando aqueles que encontraram ali a sua verdade, rompendo as barreiras, como um certo francês que se recusou a crer que eram as mesas que falavam.
Afinal, esse é o segredo da convivência pacífica entre ideias, da chamada tolerância religiosa, ou mesmo das discussões ditas como ecumênicas. Entender esse contexto de ideias que surgem e que devem ser analisadas e discutidas, com respeito e humildade. Ideias religiosas, ideias do mundo.
 No mundo da ciência e do conhecimento, tudo muda, tudo se molda. Por isso, a ideia doutrinária e religiosa se impõe à força, dilema que o Espiritismo vem romper com uma “fé raciocinada, capaz de enfrentar a razão em todas as épocas da humanidade”, e isso gera uma constante reavaliação crítica.
Ilustrando essa assustadora possibilidade de mudanças, nos servimos de Thomas Kuhn, um estudioso que vincula a ciência à resolução de problemas em um determinado contexto, do qual emergem verdades em um paradigma, verdades úteis naquele grupo/momento e que podem ser substituídas por outras verdades, diante de situações que surgem.
A ciência, para esse autor, se faz em ciclos, nos quais a ciência normal irrompe em crises, revoluções e depois volta a uma nova ciência normal, com o abandono do antigo paradigma e a adoção de um novo, cujos entendimentos sobre conceitos antigos se modificam, não sendo possível interpretar o novo sem uma nova visão, sendo, então, paradigmas incomensuráveis, ou seja, que não se comunicam.
Nesse sentido, uma visão doutrinária hermética e autoritária é um consenso momentâneo de Kuhn, que pode ser minada pela realidade, aquela que não nos pede licença para romper nossos paradigmas e impedir a nossa fossilização, cabendo a nós ter a mente aberta e afiada criticamente para analisar o que surge – mas com o respeito caridoso por outras verdades – e bom senso para ler as forças e os interesses que acompanham cada nova proposição.
Então já posso acender meu incenso na casa espírita ou estudar o levítico nas reuniões doutrinárias, alternado pelo Torá? Bem, o Espiritismo é uma visão de livre consciência, mas a casa espírita é um local de estudo da Doutrina Espírita.
O único e especializado local para isso! Nessas casas construímos a relação desse conhecimento espírita com as realidades que se apresentam, respeitando outros saberes e visões, incorporando o que couber à sua lógica, entendendo que aí sempre existem consensos e jogos de força.
O que se disse aqui é que estamos distantes de ter uma verdade plena e que cometemos muitas coisas reprováveis em nome de manutenção destas pretensas verdades.
Por isso estudamos e refletimos, não cuidando de decorar trechos de livros como textos sagrados. Essa é a essência espírita, na qual o conceito vale mais que a letra. Se ficarmos estáticos diante dos conceitos que explicam a realidade, não alcançaremos o saber profundo, buscando discutir filigranas de nosso paradigma vigente e fechados ao que surge na realidade à luz de nossa visão.
Precisamos de reflexão, humildade e uma mente aberta, para fazer essa relação tríplice de filosofia, ciência e moral (ética), entendendo que os efeitos são relevantes para que a pureza doutrinária não seja, pela sua dureza, um revival de tempos inquisitórios, deturpando a essência do Espiritismo como uma ferramenta filosófica de homens melhores, trabalhando a sua espiritualidade, guiados pela razão e com espírito investigativo.
Marcus Vinicius de Azevedo Braga

  A Minha Primeira Vez


De novo? Eu já a repelira uma vez, há uns dez anos. Agora lá vinha ela mais uma vez se insinuando, com aquele jeitinho sutil e faceiro. E não vinha sozinha! Chegava trazida pelas mãos generosas de dois dos meus melhores amigos: o casal Hugo e Cida Albuquerque. Mesmo correndo o risco de ser descortês com os meus amigos, novamente tentei repeli-la deixando claro que eu já estava com outra e em outra.
Hugo e Cida, provavelmente para me deixar mais à vontade, foram embora e ficamos eu e ela. Frente à frente! Olho no olho! Era o que eu estava esperando para livrar-me dela o quanto antes e de uma forma definitiva!
– Por favor! Desculpe-me a sinceridade, mas entenda que eu não quero nada com você! Tenho outra e estou muito bem! Eu lhe disse.
– Mas não exijo exclusividade e nem sou ciumenta! Conheça-me melhor e depois eu aceitarei a tua decisão, seja ela qual for! Ela respondeu.
Não posso negar que a admirei pela persistência e olhei-a melhor, profundamente, olho no olho, e já começando a respeitá-la mais, muito mais, eu passei a examiná-la munido com a lupa de quem procurava defeitos que me fornecessem o pretexto que eu queria, para rejeitá-la definitivamente.
Enquanto conversávamos de forma sincera, aberta, honesta, eu a examinava e testava seus valores. Com certeza eu descobriria o suficiente para mandá-la ir embora e...
Mas preciso confessar. Ela era linda! Belíssima! Quando me olhava, parecia mergulhar no meu íntimo e mesmo quando descobria os meus defeitos, era bondosa o suficiente, para me encorajar a mudar e me fazer acreditar que seria possível sim, eu me melhorar!
Eu precisava de mais tempo para encontrar a desculpa necessária para mandá-la embora de vez! Tempo! Mais um tempinho e eu descobriria que... Nossa! Além de bela e bondosa era de uma coerência e de uma lógica que beiravam o absurdo!
Não! Ela não poderia ser tão perfeita assim... Eu iria estudá-la mais até descobrir que aquela perfeição, era apenas uma enganosa aparência. Com tantas e diferentes qualidades, provavelmente ela seria muito impositiva, exigente, dispendiosa... Como se adivinhasse meus pensamentos, ela disse-me suavemente:
– Não! Eu não imponho, uma vez que adoro conscientizar! Não exijo, porque sem o livre arbítrio, qual seria o mérito em fazer algo apenas por que eu exigi? Dispendiosa? Também não, uma vez que a única coisa que realmente cobro, é que você assuma a responsabilidade de me dividir com as outras pessoas!
Meio sem argumentos e sem entender o “dividi-la com outras pessoas”, eu lhe perguntei:
– E a outra, minha querida? Aquela que, mesmo sem sermos muitos íntimos, está ligada à minha vida praticamente desde que nasci? Vou simplesmente descartá-la?
Ela não deixou passar o meu “querida”.
– Ah! Você me chamou de querida? É um bom sinal...
– Chamei? Acho que escapou... Tentei despistar para não mostrar que os meus sentimentos já estavam no mais puro estado de ebulição. Ela continuou.
– Agnaldo, eu não sou ciumenta e sugiro que inicialmente você fique com nós duas, procure nos conhecer bem e aquela que melhor atender aos teus anseios, será a tua escolhida. Seja imparcial e nos analise de forma desapaixonada, para poder decidir de forma coerente.
– Você parece estar muito segura! Provoquei.
– Eu não estou segura, eu sou! Porque se você decidir realmente com coerência, tenho certeza de que serei eu a escolhida! Ela respondeu com serenidade e sem qualquer sintoma de arrogância.
Aquilo me desnorteou profundamente e do fundo meu peito, agora totalmente descompassado pela felicidade que nascia, eu entreguei os pontos e lhe disse:
– Você é uma dádiva divina e eu agradeço a Deus por você ter aparecido na minha vida. Hoje, com a mais absoluta certeza, eu confesso que é A Minha Primeira Vez. A primeira vez que eu estou real e perdidamente apaixonado!
– Perdidamente apaixonado por mim. Espero que você não confunda paixão com amor...
– Não! Foi só uma forma de expressão... É que você me fascina e...
– Fascino? Perguntei.
– Também não. O fascínio muitas e inadvertidas vezes, leva ao fanatismo e este é uma venda nos olhos da realidade e do equilíbrio. Não, meu querido, a grande, misteriosa e mágica palavra é... Amor!
– Amor? Então é isso! Claro! É exatamente este o sentimento que acelera as batidas do meu coração neste momento.
– Então, se você me ama, não seja egoísta e não me queira apenas para si. Torne seus sentimentos públicos, para que outros também possam se apaixonar por mim.
– Está bem. Agora?
– Agora. Grite bem alto. Grite, para que o mundo te ouça.
– Eu te amo! Querida Doutrina dos Espíritos! Eu te amo!

(Este artigo foi escrito em 2009, mas a conversa entre eu e a Doutrina dos Espíritos, aconteceu em 1985, na cidade de Marabá, Estado do Pará)

Agnaldo Cardoso                                                                                                              Olinda

“Como foi a Chegada de Chico Xavier ao retornar para o Mundo Espiritual?” Relato de Joanna de Ângelis


Quando mergulhou no corpo físico, para o ministério que deveria desenvolver, tudo eram expectativas e promessas. Aquinhoado com incomum patrimônio de bênçãos, especialmente na área da mediunidade, Mensageiros da Luz prometeram inspirá-lo e ampará-lo durante todo o tempo em que se encontrasse na trajetória física, advertindo-o dos perigos da travessia no mar encapelado das paixões, bem como das lutas que deveria travar para alcançar o porto de segurança.
Orfandade, perseguições rudes na infância, solidão e amargura estabeleceram o cerco que lhe poderia ter dificultado o avanço, porém, as providências superiores auxiliaram-no a vencer esses desafios mais rudes e a crescer interiormente no rumo do objetivo de iluminação.
Adversários do ontem que se haviam reencarnado também, crivaram-no de aflições e de crueldade durante toda a existência orgânica, mas ele conseguiu amá-los, jamais devolvendo as mesmas farpas, os espículos e o mal que lhe dirigiam.
Experimentou abandono e descrédito, necessidades de toda ordem, tentações incontáveis que lhe rondaram os passos ameaçando-lhe a integridade moral, mas não cedeu ao dinheiro, ao sexo, às projeções enganosas da sociedade, nem aos sentimentos vis. Sempre se manteve em clima de harmonia, sintonizado com as Fontes Geradoras da Vida, de onde hauria coragem e forças para não desfalecer.
Trabalhando infatigavelmente, alargou o campo da solidariedade, e acendendo o archote da fé racional que distendia através dos incomuns testemunhos mediúnicos, iluminou vidas que se tornaram faróis e amparo para outras tantas existências. Nunca se exaltou e jamais se entregou ao desânimo, nem mesmo quando sob o metralhar de perversas acusações, permanecendo fiel ao dever, sem apresentar defesas pessoais ou justificativas para os seus atos.
Lentamente, pelo exemplo, pela probidade e pelo esforço de herói cristão, sensibilizou o povo e os seus líderes, que passaram a amá-lo, tornou-se parâmetro do comportamento, transformando-se em pessoa de referência para as informações seguras sobre o Mundo Espiritual e os fenômenos da mediunidade. Sua palavra doce e ungida de bondade sempre soava ensinando, direcionando e encaminhando as pessoas que o buscavam para a senda do Bem.
Em contínuo contato com o seu Anjo tutelar, nunca o decepcionou, extraviando-se na estrada do dever, mantendo disciplina e fidelidade ao compromisso assumido. Abandonado por uns e por outros, afetos e amigos, conhecidos ou não, jamais deixou de realizar o seu compromisso para com a Vida, nunca desertando das suas tarefas. As enfermidades lhes minaram as energias, mas ele as renovava através da oração e do exercício intérmino da caridade.
A claridade dos olhos diminuiu até quase apagar-se, no entanto a visão interior tornou-se mais poderosa para penetrar nos arcanos da Espiritualidade. Nunca se escusou a ajudar, mas nunca deu trabalho a ninguém. Seus silêncios homéricos falaram mais alto do que as discussões perturbadoras e os debates insensatos que aconteciam a sua volta e longe dele, sobre a Doutrina que esposava e os seus sublimes ensinamentos.
Tornou-se a maior antena parapsíquica do seu tempo, conseguindo viajar fora do corpo, quando parcialmente desdobrado pelo sono natural, assim como penetrar em mentes e corações para melhor ajudá-los, tanto quanto tornando-se maleável aos Espíritos que o utilizaram por quase setenta e cinco anos de devotamento e de renúncia na mediunidade luminosa. Por isso mesmo, o seu foi mediunato incomparável...
E ao desencarnar, suave e docemente, permitindo que o corpo se aquietasse, ascendeu nos rumos do Infinito, sendo recebido por Jesus, que o acolheu com a Sua bondade, asseverando-lhe:
– Descansa, por um pouco, meu filho, a fim de esqueceres as tristezas da Terra e desfrutares das inefáveis alegrias do reino dos Céus.

JOANNA DE ÂNGELIS (Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, no dia 2 de julho de 2002, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.) Texto extraido do Reformador - Agosto/2002 Especial - FEB

 

O que o Espírito tem que fazer para sair do Umbral? – 3ª Parte

Desta forma o Umbral nada mais é do que o reflexo dos pensamentos, desejos e vontades de inúmeras pessoas semelhantes naqueles sentimentos negativos que acabo de listar acima.
Estes sentimentos intoxicam a alma e dificultam ou impedem que estas pessoas recebam ajuda de parentes, amigos e espíritos superiores.
Na Terra só é possível ajudar as pessoas que querem receber ajuda, que aceitam a ajuda, e para ser ajudado você precisa primeiro reconhecer o erro. Lá do outro lado é a mesma coisa.
Se você sofre por ter dentro de si o sentimento de vingança, só pode ser curado deste sofrimento se conseguir perceber que precisa de ajuda. Somente nesta situação é que você consegue ser ajudado a sair do Umbral.


ADMINISTRAÇÃO DO UMBRAL – 2ª Parte

Como numa nação, lá também se pode dividir em cidades; cada uma com seus próprios líderes. Chefes, governadores, mestres, presidentes, imperadores, reis etc. São espíritos inteligentes mas que usam sua inteligência para a prática consciente do mal. São estudiosos de magia, conhecem muito bem a natureza e adoram o poder, quase sempre odeiam o bem e os bons que podem por em risco sua posição de liderança.
Há grupos de pessoas nas cidades que trabalham para os chefes. Acreditam ter liberdade e muitas vezes gostam de servirem seu chefe na ansiedade pelo poder e status. Consideram-se livres, mas na verdade não o são, ao menor erro ou na tentativa de fugir são duramente punidos.
Existem os espíritos escravos que vivem nas cidades realizando trabalho e mantendo sua estrutura sem receberem nada em troca além da possibilidade de lá morarem. São duramente castigados quando desobedecem e vivem cercados pelo medo imposto pelo chefe da cidade.
As cidades possuem construções semelhantes às que encontramos nas cidades da Terra. As maiores construções são de propriedade do chefe e de seus protegidos. Sempre existem locais grandiosos para festas, e local para realização de julgamentos dos que lá habitam.
Em cada cidade existem leis diferentes especificadas pelos seus lideres. Lá também encontramos bibliotecas recheadas de livros dedicados a tudo que de mal e negativo possa existir. Muitos livros e revistas publicados na Terra são encontrados lá, principalmente os de conteúdo pornográfico.
Além das cidades encontramos o que é chamado de Núcleos. Não constitui uma cidade organizada como conhecemos, mas se trata de um agrupamento de espíritos semelhantes. Os grupamentos maiores e mais conhecidos são os dos suicidas. Estes núcleos são encontrados nas regiões montanhosas, nos abismos e vales. Por serem espíritos perturbados são considerados inúteis pelos habitantes do Umbral e por isto não são aceitos.
Os vales dos suicidas são muito visitados por espíritos bons e ruins. Os bons tentam resgatar aqueles que desejam sair dali por terem se arrependido com sinceridade do que fizeram. Os espíritos ruins fazem suas visitas para se divertirem, para zombarem ou para maltratarem inimigos que lá se encontram em desespero. Não é difícil imaginar um local com centenas de milhares de pessoas que cometeram suicídio, todas ali unidas, sem entender o que está acontecendo, já que não estão mortas como desejariam estar.
Existem algumas poucas cidades de drogados de porte grande no Umbral. Realizam-se grandes festas e são cidades movimentadas. Existem relatos psicografados sobre uma região de drogados chamada de Vale das Bonecas e cidades como a de Tongo que é liderada por um Rei.
Para todo tipo de vício da carne existem cidades e núcleos de viciados. Por exemplo, existem cidades de alcoólatras ou de compulsivos sexuais. Todos os viciados costumam visitar o planeta Terra em bandos para sugarem as energias prazerosas dos vivos que possuem os mesmos vícios.
Mas lá também há os Postos de Socorro. Encontram-se espalhados pelas regiões sombrias do Umbral. Este local de ajuda, semelhante a um complexo hospitalar, normalmente é vinculado a uma colônia de nível superior. Nele encontramos espíritos missionários vindos de regiões mais elevadas que trabalham na ajuda aos espíritos que vivem nas cidades e regiões do Umbral e que estão à procura de tratamento ou orientação.
Quando o espírito ajudado desperta para a necessidade de melhorar, crescer e evoluir é levado para uma colônia onde será tratado e passará seu tempo estudando e realizando tarefas úteis para seu próximo. Quando se sentem incomodados e mergulhados em sentimentos como o ódio, vingança, revolta acabam retornando espontaneamente para os lugares de onde saíram. Continuamos sempre com nosso livre arbítrio.
Ninguém vai para o Umbral por castigo: A pessoa vai para o lugar que melhor se adapta à sua vibração espiritual. Quando deseja melhorar existe quem ajude. Quando não deseja melhorar fica no lugar em que escolheu. Todos que sofrem no Umbral um dia são resgatados por espíritos do bem e levados para tratamento para que melhorem e possam viver em planos de vibrações superiores. Existem muitos que ficam no Umbral por livre e espontânea vontade se aproveitando do poder e dos benefícios que acreditam ter em seus mundos.

 

COMO É A VIDA DOS ESPÍRITOS NO UMBRAL? – 1ª Parte. De  HUGO GIMENEZ


O Umbral não é o que nos ensinaram sobre o Inferno, não! O Umbral funciona como região destinada a esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu quando estava em vida. Concentra-se, aí, tudo o que não tem finalidade para a vida superior. Exemplo: Vingança, Ódio, Inveja, Rancor, Raiva, Orgulho, Soberba, Vaidade, Ciúme, etc.
O espírito impregnado com esses sentimentos se encontra intoxicado. Mas por que o Umbral é representado como um ambiente imundo, feio e sem vida? Todas as pessoas se atraem por afinidades e semelhanças. Isto acontece na Terra e no mundo espiritual.
Desta forma todas as pessoas com sede de vingança e ódio acabam se atraindo para localizações comuns do outro lado da vida, é justamente o que ocorre no Umbral. E a junção de tantas mentes doentias num mesmo espaço e a força dessas mentes acabam construindo todo o ambiente. Fica fácil perceber que um local repleto de pessoas emocionalmente desequilibradas que estão unidas pelo pensamento não é um local bonito e agradável.

Existem documentos que mostram detalhes da vida dos espíritos no Umbral?

Sim, muitos. A Doutrina Espírita é repleta de obras, sejam da codificação (obras de Allan Kardec), quanto incontáveis outras histórias, onde os próprios espíritos detalham a vida no Umbral. Contam o que sofrem (sede, fome, dor e maus tratos). Sim! Eu falei FOME, SEDE e DOR, pois as impressões da carne, no Umbral, ainda são muito fortes e a maioria dos espíritos que lá vivem, ainda não aprenderam a se desfazer dessas necessidades; coisas que espíritos mais elevados já não precisam mais. Temos relatos de que até a MENSTRUAÇÃO é presente nas mulheres que lá frequentam.

Principais características do Umbral e a vida nesse lugar:

O tempo, e as condições climáticas do Umbral seguem um ritmo equivalente ao local terrestre onde se encontra. Quando é noite sobre uma cidade, é noite em sua equivalência no Umbral. A névoa densa que cobre toda atmosfera dificulta a penetração da luz solar e da lua. A impressão que se tem é que o dia é formado por um longo e sombrio fim de tarde.
À noite não é possível ver as estrelas e a lua aparece com a cor avermelhada entre grossas nuvens. Sua maior concentração populacional está junto as regiões mais populosas do globo. Encontramos cidades de todos os portes, grupos de nômades e espíritos solitários que habitam pântanos, florestas e abismos.
É descrito por quem já esteve lá como sendo um ambiente depressivo, angustiante, de vegetação feia, ambientes Resultado de imagem para umbral sujos, fedorentos, de clima e ar pesado e sufocante. Para alguns espíritos é uma região terrível e horripilante. Para outros é o local onde optaram viver.
A vegetação varia de acordo com a região do Umbral. Muitas vezes constituída por pouca variedade de plantas. As árvores são normalmente de baixa estatura, com troncos grossos e retorcidos, de pouca folhagem.
É possível encontrar alguns tipos de animais e aves desprovidos de beleza. No Umbral se encontram montanhas, vales, rios, grutas, cavernas, penhascos, planícies, regiões de pântano e todas as formas que podem ser encontradas na Terra. Como os espíritos sempre se agrupam por afinidade (igual a todos nós aqui na Terra), ou seja, se unem de acordo com seu nível vibracional, existem inúmeras cidades habitadas por espíritos semelhantes. Algumas cidades se apresentam mais organizadas e limpas do que outras.



GAVETA DE PAPÉIS – 2ª Parte

Disso não se eximiu nem mesmo o nascente Protestantismo, cuja intolerância religiosa conduziu a crimes lamentáveis. Era melhor queimar um corpo físico — pensavam todos — do que permitir que aquela alma “rebelde” contaminasse outros seres incautos, com as suas doutrinas, e acabasse pelos arrastar às fornalhas do inferno.
Vemos, então, que a ideia da salvação se prende solidamente a duas outras: a do céu e a do inferno. A questão é que também estas precisam de um reexame muito sério. Aqueles de nós que têm tido oportunidade de entrar em contato com Espíritos desencarnados, ficam abismados com a quantidade imensa de pobres seres desarvorados que não conseguem entender o estado em que se encontram e a vida no Além, ficando numa confusão dolorosa por um lapso de tempo imprevisível.
O Espírito que levou uma ou mais existências ouvindo a pregação dogmática, sem cuidar de examiná-la, praticando as mais nobres virtudes, frequentando religiosamente todos os sacramentos e assistindo a todas as cerimônias do ritual, sente-se, com certa razão, com direitos inalienáveis ao prêmio que lhe foi prometido, isto é, subir para Deus imediatamente após a morte do corpo físico.
No entanto, não é isso que acontece. Quem somos nós, Senhor, já não digo para sermos acolhidos no seio de Deus, mas para suportar com nossos pobres olhos o brilho de um Espírito mais elevado? Que mérito temos nós, ainda tão imperfeitos, para exigir o chamado céu, após uma vida (uma só, como creem os ortodoxos) em que tanto erramos, por melhores que tenham sido nossas intenções? Como poderemos ambicionar chegar a Deus se nem ainda tivemos tolerância suficiente para admitir a coexistência de outras crenças?
Daí o desapontamento daquele que morreu em pleno seio da sua Igreja amada, protegido por todos os sacramentos, recomendado por tantas missas e serviços religiosos, mas que, a despeito de tudo isto, ainda não viu a Deus.
Conhecemos também a angústia daqueles que, conscientes dos seus erros e crimes, ou mesmo ainda indiferentes a eles, mergulham num clima de angústia que lhes parece irremediável e sem fim, tal como lhes diziam que era o inferno. Hipnotizados à ideia do sofrimento eterno, nem sequer sabem que estão “mortos” na carne nem suspeitam que podem recuperar-se pela oração e pelo arrependimento.
Figuras sinistras passeiam à sua volta e deles escarnecem e os fazem sofrer. São os demônios, pensa a criatura aterrada e desalentada. No entanto, são seres como ele próprio, também desarvorados e infelizes, todos inconscientes das forças libertadoras que trazem em si próprios e que podem ser despertadas pelo poder da lágrima e da prece.
Tanto num caso como noutro, não há como negar, estamos diante de vítimas do dogmatismo cego que proíbe o livre exame das questões.
Enquanto na carne, aceitavam aquelas ideias ou seriam forçados a abandonar as igrejas a que pertenciam, se não excomungados, pelo menos proscritos do meio. E se de um lado estão os que não se dispuseram a deixar as ideias erradas por indiferença ou comodismo, de outro vemos os que não as deixaram por receio de não se salvarem, pois que uma das doutrinas prediletas das organizações dogmáticas é a de que fora delas não há salvação.
Assim, vai a criatura inteiramente despreparada para enfrentar o momento supremo da sua vida terrena, isto é, aquele em que, mais uma vez, se encontra diante do trágico balanço da sua existência.
Por isso o Espiritismo mudou o conceito da salvação. Não dizemos que fora do Espiritismo não há salvação, e sim que fora da caridade não há salvação. Mas completamos esse nobre conceito explicando que céu e inferno são figuras de ficção que já perderam sua razão de ser e, ainda, que nunca essas ideias se conciliaram com a de um Deus justo e bom, puro e perfeito.
Esse Deus, imenso de caridade e amor, não iria criar filhos seus para as chamas do inferno irremediável e eterno, como também não ficaria como um potentado, rodeado de multidões a Lhe cantarem loas eternas.
O que Deus quer de nós é o trabalho fraterno e a conquista da nossa própria paz interior, palmo a palmo, com o nosso próprio esforço, se bem que muito ajudados pelo infinito amor que Ele derrama tão generosamente por todo esse grandioso Universo, fervilhante de vida. Salvar-se, para o Espiritismo, não é escapar às penas de um inferno mitológico, para subir às glórias de um céu de contemplação extática.
Salvamo-nos caminhando sempre para a luz divina, aos pouquinhos, vencendo nossas fraquezas, caindo aqui, levantando ali, ajudando e sendo ajudados, distribuindo as alegrias que nos sobram e recebendo um pouco da mágoa que aos outros aflige, pois que já disse alguém que a felicidade aumenta com o dar-se e o sofrimento alivia quando partilhado.
Salvar-se, para a Doutrina Espírita, não é escapar ao inferno que não existe, é aperfeiçoar-se espiritualmente, a fim de não cairmos em estados de angústia e depressão após o transe da morte, em suma, libertar-se dos erros, das paixões insanas e da ignorância. Salvamo-nos do mal e nos liberamos para o bem, eis tudo. Examine o leitor as suas ideias, como quem remexe uma gaveta de papéis.
Aqui e acolá vai encontrando alguns que não servem mais e precisam ser postos fora, como também encontrará alguns conceitos novos que, sem se saber ao certo, juntaram-se à nossa bagagem. Estes também precisam de ser examinados com atenção. Talvez nos sejam úteis, mas tenha cuidado com eles. Uma ideia pode ser nova e boa e pode ser apenas nova. Pode ser velha e excelente e pode ser não mais que uma velharia que já teve seu tempo e desgastou-se.
A pedra de toque de todas as ideias é a Verdade e esta somente nos ajuda a selecionar o nosso mobiliário mental e espiritual quando vamos adquirindo serenidade e humildade no aprendizado constante que é a vida, aqui e no Espaço.
Fonte: Reformador – agosto, 1964


GAVETA DE PAPÉIS – 1ª Parte

Acho que as ideias, como os seres, os bichos e as plantas, também envelhecem e também morrem quando se aferram à sua condição transitória, esquecidas do apoio eterno da verdade. Isso é natural e explicável, pois que, se assim não fosse, a lei evolutiva, que evidentemente governa o Universo inteiro, seria impossível.
De vez em quando temos de fazer uma revisão em nossas ideias, a fim de abandonar as que não servem mais e examinar com cuidado as que se incorporaram aos nossos arquivos psíquicos. E’ assim que evoluímos espiritualmente, pois, afinal de contas, o Espírito tem uma vocação irresistível para o aperfeiçoamento moral e o esclarecimento intelectual.
Mais ainda: é preciso desenvolver harmoniosamente os dois termos da equação humana: moral e intelecto. Nem tudo pode fazer uma criatura moralizada, quando reduzidos lhe são os recursos intelectuais, não lhe permitindo uma atividade esclarecedora em benefício próprio e alheio. Em todo o caso, é infinitamente melhor sermos bem evolvidos moralmente e acanhados do ponto de vista intelectual, do que sermos grandes sábios, pejados de conhecimentos, sem uma estrutura moral suficientemente desenvolvida.
Deficiências morais e intelectuais são transitórias; essas faculdades tendem a se ajustarem, de vez que o Espírito às vezes se detém na sua caminhada, mas nunca recua, como ensina Allan Kardec. Acabará o Espírito por encontrar em si mesmo o justo equilíbrio, tornando-se moral e intelectualmente evoluído, o que, de resto, constitui seu objetivo e seu passaporte para o mundo maior.
Em suma: é muito melhor ser bom e inculto, do que sábio e imoral, mas o ideal só começamos a alcançar quando nos tornamos bons e sábios. Enquanto não nos bafejamos com a brisa da bondade e da sabedoria, em doses equilibradas e justas, precisamos, não obstante, viver, aqui e no mundo espiritual, à medida que vamos e voltamos, em sucessivas encarnações.
Ora, viver é escolher. A vida é uma série infinita de escolhas, de decisões e resoluções. Temos de as tomar, no livre exercício do nosso arbítrio. Ninguém pode, em sã consciência, pegar-nos pela mão e nos conduzir ao nosso destino; temos de ir com as nossas próprias forças e recursos.
Quanto mais alta a hierarquia espiritual daqueles que se incumbem da espinhosa missão de nos guiar, mais cuidadosos se mostram em não tomar por nós decisão que nos compete. O que fazem esses orientadores é nos mostrar as alternativas. Se resolvermos pelo caminho do bem, dizem-nos, teremos o mérito das nossas vitórias; se nos decidirmos pelo mal, ficaremos com a responsabilidade e os ônus dos nossos erros. O Espírito, portanto, é deixado livre na sua escolha e iniciativa.
Nessas contínuas e repetidas decisões é que vamos renovando nossas ideias e treinando a nossa vontade. O que ontem nos parecia certo, hoje pode parecer duvidoso e amanhã inteiramente inaceitável. De outro lado, muito do que considerávamos há pouco completamente errôneo, pode, de repente, assumir aspectos menos hostis, até que acabamos por incorporar as novas ideias à nossa bagagem intelectual.
Há, porém, a considerar, aqui, um ponto da mais alta importância: é que tanto podemos caminhar na direção da luz como permanecer nas trevas, tateando, ou nelas afundando cada vez mais, conforme esteja ou não alertada aquela condição básica a que o Mestre chamou vigilância. Se nos faltar esta que, ainda segundo o Cristo, se fortalece com a oração (orai e vigiai), vamos aceitando ideias indignas e dissolventes que antes nos repugnavam, mas que passamos a achar muito naturais.
Se estamos atentos, se guardamos em nós a singeleza de coração que nos leva a receber, com humildade, não apenas as alegrias, mas principalmente as tristezas, então as ideias que começamos a considerar são as que constroem e educam, que aperfeiçoam e moralizam cada vez mais. E’ aí, pois, que entra em ação a nossa capacidade de escolha e decisão.
E surge a pergunta: a ideia que se nos oferece é digna de ser incorporada à estrutura do nosso espírito ou é uma dessas que só vão contribuir para nos dificultar a marcha? Será que não estaremos trocando uma ideia nova, que à primeira vista nos seduz a imaginação, por uma outra que, embora velha, está escorada na Verdade?
Ou, examinando a medalha do outro lado: será que não estamos desprezando uma ideia magnífica, apenas porque não desejamos, por comodismo ou temor, abandonar a ilusória segurança das nossas velhas e desgastadas noções?
Essas coisas todas me ocorrem quando me lembro da dificuldade que temos para nos livrarmos de ideias que somente nos prejudicam. Algumas delas têm sido mesmo responsáveis por muitas das nossas aflições e, em acentuada proporção, pelo próprio retardamento da marcha evolutiva da Humanidade.
Estão neste caso alguns dos dogmas mais caros e mais irredutíveis da teologia ortodoxa. E aqui não se distingue a teologia católica da teologia protestante. Esta última, a despeito de todo o seu ímpeto reformista, conservou certos princípios que ainda prevalecem, como a questão da salvação.
Espero que o leitor fique bem certo de que não pretendo atacar o Catolicismo nem o Protestantismo. Reencarnacionistas convictos, como somos os espíritas kardequianos, podemos estar razoavelmente certos de já havermos trilhado os caminhos da ortodoxia religiosa.
E’ bem provável que muitos de nós tenhamos até trabalhado ativamente para propagar essas ideias dogmáticas que agora não mais podemos aceitar. No entanto, temos de pensar sem que nisso vá nenhuma pitada de superioridade — que aqueles caminhos ainda servem a muitos e muitos irmãos nossos.
Mas, voltando ao fio da conversa, em que consiste a salvação? Salvamos a nossa alma, diz o teólogo, das penas do inferno e vamos para o Céu, se agirmos de acordo com os preceitos da lei moral e se praticarmos fielmente os sacramentos, observando os ritos, conforme a prescrição canônica.
Para a teologia ortodoxa não basta que o homem seja altamente moralizado, bom e puro; é preciso também que pratique os sacramentos e se conforme com a estrita orientação espiritual da sua Igreja. O desvio, por menor que seja, é logo tido por heresia e o seu iniciador é proscrito do meio, depois de esgotados os recursos habituais de persuasão, com o objetivo de reconduzir ao seio da comunidade a ovelha desgarrada.
Convém examinar bem essa ideia da salvação, pois esta é uma das que têm trazido bastante dano à evolução do espírito humano. No fundo, é um conceito egoístico: o Espírito se salva pela fé e pelas obras, diz o católico.
Não, diz o protestante, basta a fé, porque o homem é intrinsecamente pecador e sem a graça vai para o inferno irremediavelmente. E, assim, muitos se encerraram em claustros, passaram a viver isolados do mundo para que nele não contaminassem suas almas destinadas ao Senhor, logo após a libertação da morte.
Outros, empenhados não apenas em salvar as suas próprias almas, como a dos outros, saíram pregando aquilo que lhes parecia ser a doutrina final, a última palavra em matéria teológica.
Ainda outros, mais zelosos e exaltados, achavam que não bastava salvar suas próprias almas e convocar as de seus irmãos a fim de lhes mostrar o caminho; era necessário obrigá-los a se salvarem, porque nem todos estariam em condições de decidir acerca dessas coisas tão importantes.
E, por isso, aqueles que estudavam Teologia e se diziam em íntimo contato com Deus e agiam em nome do Senhor, se sentiam não apenas no dever, mas na obrigação de salvar a massa ignara que nada entendia disso. “Creia porque eu creio e eu mais do que você” — parecia pensarem estes mais agressivos salvadores de almas.
Quando o irmão recalcitrava, era preciso corrigi-lo, aplicando penas que iam desde a advertência amiga e verdadeiramente cristã, até o extremo da tortura e, finalmente, do inacreditável assassínio frio e calculado, em masmorras infectas ou nas fogueiras purificadoras.

Fonte: Reformador – agosto, 1964



Homossexualidade, por Sérgio Ribeiro



A questão 202 de O Livro dos Espíritos afirma: “Quando errante o que prefere o espírito: Encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher? Isso pouco lhe importa. O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar”.

Essa colocação da codificação demonstra a existência da bissexualidade psicológica do espírito, o que não identifica uma concordância com a vivência bissexual do ser, enquanto encarnado no campo da genitalidade.

Posteriormente, essa postura doutrinária encontraria confirmação nos estudos da psicanálise.

Na Revista Espírita, Allan Kardec assim se expressa quanto às experiências sexuais do espírito em suas diversas encarnações: “É com o mesmo objetivo que os espíritos encarnam Homossexualidade nos diferentes sexos. Aquele que foi homem poderá renascer mulher e aquele que foi mulher poderá renascer homem, a fim de realizar os deveres de cada uma dessas posições e sofrer as provas. (...) Pode acontecer que o espírito percorra uma série de existências no mesmo sexo, fazendo com que, durante muito tempo, possa conservar no estado de espírito o caráter de homem ou de mulher, cuja marca nele ficou impressa”.

Por meio da mediunidade de Chico Xavier, André Luiz assim esclarece: “Na essência, o sexo é a soma das qualidades passivas ou positivas do campo mental do ser. É natural que o espírito acentuadamente feminino se demore séculos e séculos nas linhas evolutivas da mulher e que o espírito marcadamente masculino se detenha por longo tempo nas experiências do homem”.

É essa condição de que o sexo seja mental, como bem esclarece a codificação e as obras secundárias, que pode explicar a questão da homossexualidade. Se o sexo não fosse mental, não haveria razão para a existência de tal condição, já que a morfologia do corpo não se superpõe aos poderes da mente, mas se sujeita às suas ordens. E essa estrutura psicológica na qual se erguem os destinos, foi manipulada com os ingredientes do sexo através de milhares de reencarnações, conforme afirma Emmanuel pela psicografia de Chico Xavier.

 As causas morais

No campo das causas morais, encontramos aquelas criaturas que abusaram das faculdades genésicas tanto da posição masculina como da feminina, arruinando a vida de outros indivíduos, destruindo uniões e lares diversos. Elas são induzidas a procurar uma nova posição ao reencarnarem, em corpos físicos opostos às suas estruturas psicológicas, a fim de que possam aprender, em regime de prisão, a reajustarem seus próprios sentimentos.

Encontramos também aqueles que persistem nessas práticas por uma busca hedonista, sem maior compromisso com a vida, que reencarnam assim na tentativa de retratarem suas posições em nova chance de resgate. São espíritos rebeldes, pertinazes em seus erros, que encontram na questão da inversão sexual, uma oportunidade para o refazimento de suas vidas, na qual a lei divina lhes coloca diante de situações semelhantes ao passado de faltas, cobrando-lhes posturas mais éticas perante si e o outro.

 Causas educacionais

As causas educacionais podem ser agrupadas em atávicas e atuais. A atávica é resultado de vivências repetitivas dos espíritos em culturas e comunidades onde a prática homossexual seria aceita e até estimulada, como na Grécia antiga e em certas tribos indígenas, ou nas sociedades culturais e religiosas que segregavam ou segregam seus membros, facilitando esse comportamento nas criaturas. Assim, ao reencarnarem em um local onde o homossexualismo não fosse mais aceito como prática livre, esbarrariam em sua condição viciosa.
Já dentro das atuais, temos aquelas causas advindas dos defeitos de educação nos lares, onde o comprometimento dos afetos já estaria presente anteriormente, em que as paixões deterioradas do passado tendem a levar pais e parentes ascendentes a estimularem posturas psicológicas e sexuais inversas ao seu estado físico em seus descendentes, sem que necessariamente ocorressem comportamentos ostensivamente incestuosos.
Encontramos também os casos de pais contrariados em seus desejos quanto ao sexo do rebento, levando-o a uma condição inversa ao de seu sexo físico ou aqueles dos quais a entidade reencarnante, ao perceber esse desejo inconsciente dos pais, busca se adaptar patologicamente a essa situação durante o processo da gestação.
Outra causa está na presença de segmentos atuais da sociedade e da cultura estimulando esse tipo de conduta, quando uma linguagem mais política e sem qualquer comprometimento ético, através dos vários meios de comunicação de massa, estimula e condiciona as criaturas a acreditarem que essas vivências seriam uma postura natural, dependendo unicamente da escolha realizada pelo indivíduo.


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