Contos Espíritas

CONTOS




DUAS ESPÉCIES DE CORAGEM

Vivia em Cuzco, no tempo do célebre Inca Viracocha (na segunda metade do século XIV), um valente general, de nome Sinchi Maqui, que tinha prestado valiosos serviços ao Inca Yahuar Huacar, e era muito estimado por este e pelo sucessor, por ser muito corajoso e intrépido. O seu nome brilhava na lista dos defensores da Pátria Peruana, nas expedições contra as províncias de Chinchafuya e Atahaualha, e gozava de grande estima e confiança do imperador Viracocha.
Tinha um filho, de nome Hailhi, e desejava que este se tornasse igualmente célebre no desempenho das atividades militares. O jovem, porém, não mostrava grande amor aos exercícios próprios dos guerreiros, preferindo ocupar-se com os estudos científicos.
 Dedicava seu tempo à leitura dos nós dados em cordões, distribuídos em suspensão em grandes salões do palácio imperial; pois, no Império dos Incas não se conhecia a arte de escrever sobre papel ou semelhante material, mas todos os registros de fatos históricos e as notas da vida prática eram feitos por meio desses nós, cuja leitura e manipulação era dada aos poucos homens, encarregados de tais conhecimentos.
Ao principio agradava ao pai a aplicação do filho nos estudos, porque julgava que, depois de tornar-se “Amauta”, isto é, sábio, dedicar-se-ia com entusiasmo aos exercícios das armas, manejo da flecha e das lutas corporais. Quando, porém, uma dia Hailhi explicou claramente ao pai que não queria ser guerreiro, e sim continuar seus estudos, e tornar-se útil à Pátria com o seu saber, Sinchi Maqui, já velho, indignou-se e, agarrando uma lança, atirou-a contra o filho, exclamando: “Morre, filho desobediente e covarde!”.
Como, porém, a velhice tinha enfraquecido o braço do guerreiro e seus olhos, a lança não acertou o coração do jovem, ferindo-o apenas superficialmente no peito. Hailhi, sem assustar-se, tirou a lança da ferida e, sorrindo, entregou-a ao pai, colocando-se perto dele e oferecendo seu peito para novo golpe.
Este rasgo de coragem e nobre atitude do filho, produziu no velho guerreiro uma profunda impressão. Envergonhado, quis suicidar-se com a mesma lança; porém, Hailhi impediu-o nesse intuito, dizendo-lhe: “Meu pai, já viste que não sou covarde; tem, portanto, também tu a coragem de suportar a tua vida, pois, não há motivo para desesperares. Não é só na guerra que se manifesta a coragem; a vida apresenta muitas ocasiões em que ela é exigida”.
Desde aquele tempo, Sinchi Maqui nunca mais contrariou a vocação do filho, e alcançou ainda os anos em que Hailhi se tornou célebre na Corte Imperial por sua grande sabedoria.
Antônio F. Rodrigues (médium) F. V. Lorenz (espírito) Livro: Mensagens dos Mestres


QUINZE MINUTOS

Aristeu Leite era antigo lidador da Doutrina Espírita. Assíduo cliente das sessões. Dono de belas palestras. Edificava maravilhosamente os ouvintes. Bom leitor. Correspondente de instituições distintas.
Mantinha com veemência o culto do Evangelho no lar.
Extremamente caridoso. Visitava, cada fim de semana, vários núcleos beneficentes.
Naquela sexta-feira foi para casa, exultante. Vivera um dia pleno de trabalho, coroado à noite pela oração ao pé dos amigos.
Entrou. Serviu-se de pequena porção de leite e, logo após, dirigiu-se ao quarto de dormir, onde a esposa e as filhinhas repousavam. Preparou-se para o sono. Sentia, porém, necessidade de meditação e voltou à sala adjacente.
Abriu pequeno volume e releu este trecho:
“O cristão é testado, a cada instante, em sua fé, pelos acontecimentos naturais do caminho. Por isso mesmo, a oração e a vigilância, recomendadas pelo Divino Mestre, constituem elementos indispensáveis para que estejamos serenos e valorosos nas menores ações da vida. Em razão disso, confie na Providência Maior, busque a benignidade e seja otimista.
A caridade acima de tudo é infatigável amor para todos os infelizes. Por ela encontraremos a porta de nossa renovação espiritual. Acalme-se, pois, sejam quais forem as circunstancias e ajude a todos os seres da Criação, na certeza de que estará ajudando a si mesmo”.
Aristeu fechou o livro, confortado e refletiu:
“Estou satisfeito. Vivi bem o meu dia. Continuarei imperturbável. Auxiliarei a todos. Estou firme. Louvado seja Deus”. Sem dúvida, sentia-se mais senhor de si. Realizava-se. E, em voo mais alto de superestimação do próprio valor, acreditou-se em elevado grau de ascensão íntima. Nesse estado d’alma, proferiu breve oração e consultou o despertador. Uma e quinze da madrugada. Apagou a luz e recolheu-se.
Penetrava de leve os domínios do sono, quando acordou sobreexcitado. Alguém pressionava de manso a porta. A esposa despertou trêmula. Aterrada, não conseguiu sequer falar.
Aristeu, descontrolado, pôde apenas balbuciar:
– Psiu, psiu… Ladrão em casa.
Lembrou-se, num átimo, de antigo revólver carregado, em gaveta de seu exclusivo conhecimento.
Deslizou, à feição de gato. E porque o rumor aumentasse, disparou dois tiros contra o suposto intruso.
Dispunha-se a continuar, quando voz carinhosa exclamou assustadiça:
– Meu filho! Meu filho! Sou eu, seu pai! Sou eu! Sou eu!…
Desfez-se o tremendo engano.
O genitor do chefe da casa viera de residência contígua. Possuindo as chaves domésticas, não vacilara, aflito, em vir rogar ao filho socorro médico para a esposa acamada, com febre alta.
Algazarra. Vizinhos em cena. Meninas em choro de grande grito.
Aristeu, envergonhado, abraçava o pai saído incólume, e explicava aos circunstantes o acontecido.
Enquanto revirava pequena farmácia familiar, procurando um calmante, deu uma olhadela ao relógio.
Uma e meia da manhã. Entre os votos solenes e a ação intempestiva que praticara, havia somente o espaço de quinze minutos…
Chico Xavier (médium) Hilário Silva (espírito) Livro: Ideias e Ilustrações


REMÉDIO CONTRA TENTAÇÕES

Instado por um cristão novo de Jerusalém, que se fazia portador de preciosos títulos sociais, desejoso de ouvi-lo quanto a remédio eficaz contra as tentações, Simão Pedro, já velhinho, explicou sem rebuços:
– Certo homem de Gaza, que amava profundamente o Senhor e lhe observava, cauteloso, os mandamentos, após cumprir todos os deveres para com a família direta, viu-se, na meia-idade, plenamente liberto das obrigações mais imediatas e, porque suas aspirações mais altas fossem as de integração definitiva com o Altíssimo Pai, consagrou-se à contemplação dos mistérios divinos. Recolheu-se à oração e à meditação exclusivas.
Extasiava-se diante das árvores e das fontes, perante o lar e o céu, louvando o Criador em cânticos interiores de reconhecimento. Tão maravilhosamente fiel se tornara ao Poder Celestial, que as Forças Divinas permitiram ao Espírito das Trevas aproximar-se dele, qual aconteceu, um dia, a Job, na segurança de sua casa em Hus.
O Rei do Mal acercou-se do crente perfeito e passou a batalhar com ele, tentando enegrecer-lhe o coração.
Após longos dias de conflito acerbo, o aspirante ao paraíso implorou ao Eterno, em soluços, lhe fornecesse recurso com que esquivar-se à tentação. Suplicou auxílio com fervor intenso, que o Misericordioso, através de um emissário, aconselhou-o a cultivar a terra.
O piedoso devoto atendeu à ordem, rigorosamente. Adquiriu extensos lotes de chão, preparou sementeiras e adubou-as; protegeu grelos tenros, dividiu as águas com inteligência; tomou a colaboração de regular exército de servidores e, vindo o Perverso Dominador, tão ocupada lhe encontrou a mente que foi obrigado a adiar a realização dos escuros propósitos.
O aliado de Deus agiu com tanto brilho que, em breve, a propriedade rural de que se fizera fiador converteu-se em abençoado centro de riqueza geral, a produzir, mecanicamente, para a fartura de todos.
Atendida a designação que procedia do Alto, o mordomo voltou a repousar e o Malvado se lhe abeirou dos passos, novamente.
Outro combate silencioso e o devoto suplicou a intervenção do Altíssimo.
Manifestando-se, por intermédio de devotado mensageiro, recomendou-lhe o Pai Bondoso fiar a lã dos rebanhos de ovinos que lhe povoavam as pastagens, e o beneficiado do conselho celeste observou fielmente a determinação.
Movimentou pessoal, selecionou carneiros, adquiriu teares e agulhas, fez-se credor de larga indústria do fio e, chegando o Maligno, notou-o tão ocupado que, sem guarida para provocações, se refugiou à distância, aguardando oportunidade.
O esforço do missionário, em poucos anos, imprimiu grande prosperidade ao serviço fabril, dispensando-o de maiores preocupações.
Reparando-o livre, regressou o Gênio Satânico e rearticulou-se a guerra íntima.
O aprendiz da fé recorreu à prece e outra vez implorou medidas providenciais ao Doador das Bênçãos.
O Poderoso, exprimindo-se por um anjo, induziu-o a moer grãos de trigo para benefício comum.
Voltou o favorecido ao trabalho e construiu, utilizando o concurso de muita gente, valiosos moinhos, suando, à frente de todos, na fabricação de farinhas alvas. Tornando o Dragão das Sombras e percebendo-lhe tão grande preocupação na atividade salvadora, retirou-se de novo, constrangido, espreitando ocasião mais oportuna.
Com o êxito amplo do servo leal, novo descanso abriu-se para ele e Satanás retornou, furioso, à batalha pela posse de sua vida.
O piedoso discípulo da salvação refugiou-se na confiança em Deus e o Todo-Amantíssimo, por outro enviado, aconselhou-o a erguer um pomar, em beneficio dos servidores que lhe seguiam a experiência.
Retornou o crente ao serviço ativo e tão entregue se achava às responsabilidades novas que o Perseguidor se viu na contingência de retroceder, na expectativa de ensejo adequado.
A fidelidade conferiu ao trabalhador operoso novas bênçãos de merecida prosperidade e o apaziguamento lhe felicitou o caminho.
Quando se fixava o crente, despreocupado e feliz, na beatitude, a fim de melhor agradecer as dádivas divinas, eis que ressurge o Maldito, convocando-o a retomar o duelo oculto.
O devoto, entretanto, compreendendo, por fim, as lições do Senhor, não se internou em novas rogativas. Envolveu-se no serviço útil ao mundo e aos semelhantes, até o fim de seus dias, quando partiu da Terra ostentando a coroa da eternidade.
O ouvinte sorriu, algo apreensivo, e o velho Pedro, calejado no sofrimento e no sacrifício, terminou, muito calmo:
– O único remédio seguro que conheço contra as tentações é o mergulho do pensamento e das mãos no trabalho que nos dignifique a vida para o Senhor.
E deu por finda a fraternal entrevista.
Chico Xavier (médium) Irmão X (espírito) Livro: Luz Acima
DEUS TE ABENÇOE

Logo após fundar o Lar “Anália Franco”, na cidade de S. Manuel, no Estado de São Paulo, viu-se D. Clélia Rocha em sérias dificuldades para mantê-lo.
Tentando angariar fundos de socorro, a abnegada senhora conduzia crianças, aqui e ali, em singelas atividades artísticas. Acordava almas. Comovia corações. E sustentava o laborioso período inicial da obra.
Desembarcando, certa noite, em pequena cidade, foi alvo de injusta manifestação antiespírita. Apupos. Gritaria. Condenações.
D. Clélia, com o auxílio de pessoas bondosas protege as crianças. Em meio à confusão, vê que um moço robusto se aproxima e, marcando-lhe a cabeça, atira-lhe uma pedra.
O golpe é violento. O sangue escorre. Mas a operosa servidora do bem procede como quem desconhece o agressor.
Medica-se depois.
Há espíritas devotados que surgem. D. Clélia demora-se por mais de uma semana, orando e servindo.
Acabava de atender a um doente em casa particular, quando entra uma senhora aflitíssima. É mãe. Tem o filho acamado com meningite e pede-lhe auxílio espiritual.
D. Clélia não vacila. Corre ao encontro do enfermo e, surpreendida, encontra nele o jovem que a ferira.
Febre alta. Inconsciência. A missionária desdobra-se em desvelo. Passes. Vigílias. Orações. Enfermagem carinhosa.
Ao fim de seis dias, o doente está salvo. Reconhece-a envergonhado e, quando a sós, beija-lhe respeitosamente as mãos e pergunta:
– A senhora me perdoa?
Ela, contudo, disse apenas, com brandura:
– Deus te abençoe, meu filho.
 Mas o exemplo não ficou sem fruto, porque o moço recuperado fez-se valoroso militante da Doutrina Espírita e, ainda hoje, onde se encontra é denodado batalhador do Evangelho.
Chico Xavier e Waldo Vieira (médiuns) Hilário Silva (espírito) Livro: O Espírito da Verdade



SURPRESA

– Se alguém de outra vida pudesse materializar-se aos meus olhos – dizia Germano Parreira, em plena sessão no próprio lar -, decerto que a minha fé seria maior… Um ser de outro planeta que me obrigasse a pensar… Tanta gente se reporta a visões dessa natureza! Entretanto, semelhantes aparições não passam do cérebro doentio que as imagina. Quero algo de evidente e palpável. Creio estarmos no tempo da elucidação positiva.
Ouvindo-o, o Irmão Bernardo, mentor espiritual da reunião, que senhoreava as energias mediúnicas, aventou, sorridente:
– Você deseja, então, espetacular manifestação de Cima… Alguém que caia das nuvens à feição de um paraquedista do espaço, em trajes fantasmagóricos, usando idioma incompreensível… um itinerante de outras constelações, cuja inopinada presença talvez ocasionasse enorme porção de mal, ao invés do bem que deveria trazer…
– Não, não é tanta a exigência – aduziu Parreira, desapontado. – Bastaria um ser materializado na forma humana, sem a descida visível do firmamento. Não será preciso que essa ou aquela entidade se converta em bólide para acentuar-me a convicção. Poderia surgir em nossa intimidade doméstica, sem qualquer passe de mágica, revelando-se no lar fechado em que antes não existia, a mostrar-se igual a nós outros, sendo, contudo, estranho ao nosso conhecimento…
– No entanto, sabe você que toda concessão envolve deveres justos. Um Espírito, para materializar-se na Terra, solicita meios e condições. Imaginemos que a iniciativa transformasse o hóspede suspirado numa criatura doente e débil, requisitando cuidado, até que pudesse exprimir-se com segurança. Incumbir-se-ia você de auxiliar o estrangeiro, acalentando-o com tolerância e bondade, até que venha a revelar-se de todo? Estaria disposto a sofrer-lhe as reclamações e as necessidades, até que se externe, robusto e forte?
– Oh! Isso mesmo. Perfeitamente!… – gritou Parreira, maravilhado. – Contemplar um Espírito assim, de modo insofismável, sem que eu lhe explique a existência no mecanismo oculto, consolidaria, sem dúvida, a riqueza de minha fé na imortalidade. Isso é tudo quanto peço, tudo, tudo…
Bernardo sorriu, filosoficamente, e acrescentou:
– Mas, Parreira, isso é acontecimento de todo dia e tal manifestação é recente sob o teto que nos acolhe. Ainda agora, na quinzena passada, você recebeu semelhante bênção, asilando no próprio lar um viajante de outras esferas, com a obrigação de ajudá-lo até que se enuncie sem vacilação de qualquer espécie… Esse gênio bondoso e amigo corporificou-se quase em seus braços. Bateu-lhe à porta, que você abriu generosamente. Entrou. Descansou. Permaneceu. E, ainda agora, ligado a você, espera por seu carinho e devotamento, a fim de atender plenamente à própria tarefa…
Como assim? Como assim? – irrompeu Germano, incrédulo. – Nada vi, nada sei, não pode ser…
Mas o Benfeitor Espiritual, controlando o médium, ergueu-se a passo firme e, demandando aposento próximo, de lá regressou, trazendo leve fardo.
Ante a surpresa dos circunstantes, Bernardo depositou-o com respeitosa ternura no regaço do amigo que ainda argumentava.
Parreira desenovelou curiosamente o pequenino volume e, entre aflito e espantado, encontrou, em plácido sono de recém-nato, o corpo miúdo e quente do próprio filho…
Chico Xavier (médium) Irmão X (espírito) Fonte: Livro: Luz no Lar




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